quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Capítulo 12 - Escolha


   
 ((Lawliet)) 

“Para Kira, a vitória já lhe pertencia. Mal sabia ele que eu estava bem perto, observando cada passo seu, pronto para dar o bote.”

Três dias. Esse foi o tempo em que, de longe, observei Light e Kaori escrevendo os malditos nomes no caderno sobrenatural. Ele procurava os nomes e ela, eficiente, escrevia por horas a fio, como um robô. Era uma tarefa esquematizada e monótona, que ocupava toda a tarde e parte da noite. Como eu havia previsto, Light Yagami estava sempre ali, a monitorando. Sendo assim, eu não podia me dar ao luxo de me aproximar muito. Ambos já sabiam que estavam sendo vigiados, e meu anonimato era uma peça fundamental para impedi-los. Sabia que tudo aconteceria na hora certa.

Na manhã do quarto dia, eu tentava rabiscar mentalmente um plano que fosse bom o suficiente para pará-los. Antigamente, não havia um ser no mundo que fosse melhor em esquematização de planos do que eu, mas já estava ficando um tanto entediado com aquela demora.

O caderno fazia seu trabalho, Yaoshii era controlada por Light. Centenas de mortes já estavam ganhando a atenção da mídia, e começava a ser cogitado o retorno de Kira. Tudo estava indo por água abaixo.

Se eu ao menos pudesse roubá-lo e me livrar dele... Mas nem isso eu poderia fazer, já que Yagami, depois de minha mensagem, começou a andar de um lado para o outro com o objeto de capa escura, como se tivesse passado cola.

Kira sabia que seria impossível alguém tocar no Death Note enquanto ele estivesse em sua posse, e eu sabia que ele estava certo.

O que faria?

Encarei o céu nublado, como se ele pudesse me dar a resposta.

O problema era sempre o mesmo: Death Note, Death Note.

Não havia modos de tirá-lo das malignas mãos de Yagami!

Ei... Talvez fosse isso! Estava tendo problemas em cogitar um plano contra Kira porque minha linha de raciocínio permaneceu tentando buscar uma solução direta e óbvia o tempo todo: afastar o caderno de Light. Como já havia repassado milhares de tentativas que sabia serem totalmente inadmissíveis, não conseguiria.

Eu precisava pensar numa alternativa, igualmente eficiente, mas possível de ser realizada.

E lá, agachado no murinho da sacada com o dedo nos lábios observando a cidade matutina, que o plano perfeito se criou. Fiquei de pé e me lancei pelos ares.

Kira teria uma desagradável surpresa.

(...)

Havia muito movimento na sala de reuniões do QG devido ao Retorno de Kira. Mas nenhum sinal de Nate. Subi alguns andares e encontrei uma porta branca. Atravessei-a. Lá dentro, tudo era da mesma cor que sua entrada, menos os muitos brinquedos espalhados pelo chão do quarto, ao redor da cama alva. Em cima dela, o garoto que compartilhava a cor do cômodo, montava um quebra cabeças... Branco.

Deus, ele com certeza tinha algum problema...

Sim, eu certamente sou muito normal.

Desviei dos brinquedos e me aproximei de Near.

—Você podia gostar de doces assim como gosta desses brinquedos.

Subitamente, ele se virou. O rosto se iluminou, como se eu fosse algum brinquedo em edição limitada.

—Você voltou... Admito que fiquei em dúvida se tudo foi um sonho ou não. Mas agora, tenho certeza de que foi real. – Nate disse, sorrindo.

Sentei-me na beirada da cama. Olhei para ele.

—Eu sou real, não tenha dúvidas quanto a isso. Vim aqui para saber uma coisa importante que pode me ajudar muito.

—E o que seria?

—O Death Note que você apreendeu de Light Yagami. Onde ele está?

N ficou surpreso com minha súbita pergunta. Sua resposta foi cuidadosa.

—Logo após sua morte, eu dei a ordem de destruí-lo, para que não houvessem mais riscos.
“Isso complica um pouco as coisas...”

—Mas porque a pergunta, L? – Nate questionou, tirando-me de meus devaneios. - Não é como se você quisesse se tornar um portador. Quer dizer, você não quer... Não é?

Meu silêncio falou por mim.

—Você... Quer um Death Note para uso próprio. - não era uma pergunta.

—Eu não vou matar ninguém – tranquilizei-o. – Acha que eu seria mesmo capaz de o fazer?

A confusão tomou seu rosto.

—Não. Conheço você desde criança, Lawliet. Mas pelo menos posso saber o motivo de querer um?

—Eu já disse, para deter Kira. Ah, vou precisar de uma micro câmera também.

Ele me encarou como se pudesse ler minha expressão, e eu imaginava que talvez conseguisse. Near era o único que realmente me conhecia, além de Watari.

—Um Death Note e uma micro câmera... - falou em meio a sua concentração. Depois de alguns segundos, ele arregalou os olhos por um instante e sorriu.

—Eu sei exatamente o que você planeja, L - disse, satisfeito por ter descoberto o plano apenas com minhas rasas palavras.

—Ótima dedução, Nate. É por isso que você está me substituindo. – elogiei.

—Se quer saber, tive um exímio professor – sorriu, e eu não pude evitar fazer o mesmo.

Depois de alguns minutos observando o talento do garoto em montar quebra-cabeças, sem desviar o olhar das peças, ele perguntou:

—Fantasmas podem ser portadores?

A questão era tão ingênua que tive pena. Ele achava que eu era um fantasma.

—Nate, eu não sou um fantasma.

Me fitou.

—Então... O que você é realmente?

Eu poderia contar à ele?

Tecnicamente, não. Mas ele guardaria segredo, eu tinha certeza. Eu havia me mostrado e pedido sua ajuda; o mínimo que podia fazer era dizer a verdade.

—Eu sou um Anjo.

Silêncio.

Sua reação foi muito diferente do que eu esperava.

—Quer dizer que os mortos viram Anjos? - A confusão e incredulidade em sua voz eram tantas que quase ri.

—Não, Nate. Eles não viram Anjos. É que meu caso foi especial.

—Especial? - franziu o cenho.

—Fui o único espírito em séculos que conseguiu alcançar esse tipo de proeza. Pelo que entendi, isso aconteceu pelo fato de eu ter colaborado tanto para manter a paz mundial - ri - investigando os malfeitores e apoiando a polícia.

—Então você é famoso.

—Um pouco... - admiti- Mas às vezes me sinto sozinho lá.

—E como é lá?

Porque era tão complicado conversar com vivos? Ele realmente esperava que eu descrevesse o Paraíso? Bem, eu já tinha dito várias coisas que não deveria, mais uma não parecia ser grave. Tudo bem, seria outra regra restringida por mim, e isso estava começando a me deixar preocupado com as futuras consequências que isso me traria.

Isso se eu conseguisse retornar.

—Você faz muitas perguntas pro meu gosto.

Ele completou o quebra–cabeças. Foi só assim que percebi que, bem em seu centro, havia a minha letra L.

—Estou só aproveitando a oportunidade. – fiquei aliviado por ele não insistir na questão - À propósito, eu posso conseguir a câmera que pediu, mas o caderno terá de encontrar sozinho. Sinto muito, mas por enquanto é tudo o que posso fazer.

Assenti.

—Pela manhã, eu venho aqui pegar a câmera para instalar no quarto de Kaori. Antes disso, vou à procura de um Death Note.

Sorri.

– Prepare-se, Near. A diversão está prestes a começar.

Suas gargalhadas encheram o aposento.

(...)

Debruçado sobre o chão sedoso, entrelacei meus dedos na grama mais macia que veludo. Respirei seu perfume paradisíaco e me virei, olhando para o céu fantástico e vivo.

Coloquei as mãos debaixo da cabeça. Havia sentido falta daquele lugar... Mas eu não podia demorar. Prometi à mim mesmo que apenas percorreria o caminho para o portal, sem nem ao menos ver Watari que, por Deus, devia estar muito preocupado. Lumiére daria um jeito nisso por mim. Eu poderia visitá-lo, mas teria que evitar ser visto por um Arcanjo que patrulhasse a área. Não sabia qual era a proporção do meu problema por burlar Leis do Universo, e não estava com muita vontade de descobrir.

O que eles fariam comigo? Me jogariam no Inferno? Não... Eles não exagerariam tanto assim. Talvez retirassem minha extrema inteligência. Ou então me proibiriam de comer tanta glicose.

Ops. De repente o Inferno não me pareceu tão ruim...

Sentei-me. Eu não tinha tempo para pensar bobagens e me distrair com a paisagem. Possuía uma missão: Encontrar um Shinigami e pegar seu Death Note. Para isso, eu precisava refazer o percurso que havia feito um tempo atrás, ou seja, o Anjo detetive aqui iria visitar os condenados mais uma vez.

(...)

Foi ainda pior.

Como era a segunda vez, pressupus que meu corpo astral não sofreria tanto como antes, já que ele estaria acostumado à queda de energia e sensação de fogo o percorrendo. Mas não. Ao atingir o solo, não fiquei alguns segundos deitado com olhos fechados. Fiquei minutos!

Depois da imensa tortura, consegui sair do lugar. Olhando ao redor, percebi minha visão um pouco embaçada. Cambaleante, segui em frente. Mas não muito, pois após alguns passos, acabei indo pro chão novamente.

Ergui as mãos tentando encontrar qualquer apoio para agarrar e subir. Foi então que senti alguém pegando meus pulsos. E eu tinha certeza... eram mãos humanas. Agradeci mentalmente, já que duvidava que pudesse me erguer sozinho.

Já em pé e tentando respirar, levantei a cabeça. E a pessoa que eu vi, me tirou a razão.

Light Yagami.

Era ele. Mas... como? Cabelos sedosos e castanhos, olhos amendoados e um leve sorriso gentil. Não o shinigami, mas... o humano, aquele que por vezes achei ser meu amigo.

Por instinto, o empurrei, e ele tombou pra trás. Erguendo-se, disse:

—É assim que você trata um velho amigo? – como ele estava bem humorado após aquilo?

Vendo meu rosto incrédulo, ele sorriu.

—Está agindo como uma criança, Ryuuzaki.

Minha resposta foi direta.

—Você não é o Light.

Seu sorriso se ampliou.

—Primeiro, rouba minha aparência e agora a de Yagami? Quem você pensa que é? Está tão entediado assim?

Ele gargalhou. Aquilo estava me dando vontade de grudar em seu pescoço.

—Eu gosto de você, L. Era muito divertido assistir as briguinhas entre você e Light.

Briguinhas? Ele chamou minhas investigações contra Kira e suas matanças de briguinhas?

Respirei fundo.

—Então você esteve na Terra?

—Eu era o dono original do Death Note de Light. Me chame de Ryuuku.

Ryuuku? Então era ele esse tempo todo?

— Eu sei que você já enganou o Rei dos Shinigamis para ter um segundo Caderno. Será que pode me ajudar a conseguir um?

Depois de um segundo de incredulidade, ele começou a rir.

—Você? Com um Death Note? – as risadas aumentaram – Um Anjo portador?

Como Yagami conseguira conviver com ele?

—Eu não vou ser um portador. Não vou matar ninguém, como fez seu amiguinho. Aliás, continua fazendo. É só um empréstimo. Finalmente, as risadas diminuíram.

—Entendo. Devo avisar, detetive, que se você se tornar um portador, terá o mesmo destino de Light. Quando decidir parar suas investigações, não terá mais Paraíso. Só haverá Vazio.

Eu já desconfiava. Era esse meu maior medo.

“Não haveria retorno para mim, então?”

Como se estivessem tentando me responder, minhas mãos foram se tornando translúcidas, e o medo se apoderou totalmente de meu ser, pela primeira vez na vida.

– Vai me ajudar ou não, Ryuuku?

Por um instante, o shinigami pareceu pensativo. Como num passe de mágica, retornou à sua verdadeira forma, e um Death Note apareceu em sua mão direita.

— Anjos são tão... Divertidos. – sua risada foi prazerosa, como se ele se lembrasse de uma piada interna. Estendeu-me o caderno. Eu o peguei sem hesitar.

—E você está fazendo isso só porque está entediado?

—Exatamente. Não tenho nada contra você e nada contra Light. Eu só estou... te colocando de volta no jogo. Sou apenas um expectador.

—Só o Rei dos Shinigamis teria poder suficiente para transformar Light num Shinigami. Mas eu ainda não entendo o que ele ganharia com isso. – comentei, esperando algum esclarecimento.
— Ah, isso é bem simples! Ele terá almas. Já estava satisfeito, Kira o auxiliava nesse quesito. Então Light morreu, parando as mortes. O resto você já sabe.

Sim, eu já sabia. Por culpa do tal Rei dos Shinigamis, o jogo – como Ryuuku havia chamado – havia recomeçado. Tive vontade de falar com a alteza pessoalmente, mas eu precisava sair daquele mundo o mais rápido possível.

—Eu preciso ir. – Caminhei em direção ao portal que me levaria à Terra- E não se preocupe. O seu tédio vai desaparecer mais rápido do que imagina.

– Estou apostando todas as minhas cartas nisso, detetive L. – foi sua resposta.

Ao cruzar o portal, me vi pensando em tudo o que havia ocorrido, principalmente no fato de eu precisar dar adeus ao mundo que pertencia.

Decidi que não importava. Humano, anjo ou somente um mísero encosto no vazio, eu ainda era o maior detetive do mundo. Não importava o sacrifício, eu anularia com o outro caderno todos os nomes que Light e Kaori escrevessem, exatamente ao mesmo tempo, de acordo com as anotações no notebook. Eu copiaria os arquivos, e me manteria informado.

Você quer jogar, Kira? Então vamos jogar.

Esse detetive não se submeteria à nada que o fizesse parar.

Nem mesmo a não-existência.


Um comentário:

  1. OLAR ! Adorei o seu blog , Seguindo :) Se quiser varias dicas e guias de viagens dá uma passada no meu blog ! bjs

    http://alivepineapple.blogspot.com.br

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